Jornal

 



Desde muito pequeno fui ensinado a não assistir jornal, e bom, sempre segui o conselho. É intrigante que as mesmas coisas fossem ditas: “isso só traz tormento”, “ficar assistindo isso torna a pessoa perturbada”. Não discordo dessas afirmações, mas quero olhar de uma forma diferente. O brasileiro é mestre em driblar a dor; tudo o que ele pode fazer para fugir da responsabilidade, o fará. Também somos ensinados a não nos intrometermos na vida do outro; interessantemente, são os brasileiros que mais vivem uma vida que não é sua. Olhando por esse ponto, devemos lembrar do triste caso de “Jéssica Vitória Canedo”, vítima de perder a vida na língua dos outros. É essa arte de querer saber e comentar sobre; é assumir o papel de Screwtape e atormentar a alma dos atormentados. É a face humana sob a cultura brasileira; é esse desejo de ser o filho do Diabo. Somos almas atormentadas nos tornando atormentadores.


Preocupamo-nos com a outra pessoa quando o único objetivo é rotular o outro. Dirigir palavras triviais às pessoas, assumindo o comando de julgar. Damos esmolas e criticamos quando o mendigo usa a esmola para comprar cerveja; ora, o dinheiro é dele e não seu. Fazemos caridade desejando reconhecimento ou cobramos civilidade daquele que não tem. Como é fácil ser assim, alma mesquinha. A vida do brasileiro é pensar como um marxista, buscando e buscando o “para quê?”. Ele, o brasileiro, não faz nada por amor ao outro, mas a si. Fazemos faculdades pensando em dinheiro e criamos médicos fracassados e profissionais com depressão. Gostamos de xingar o bandido e seguir o mesmo caminho de malandragem descabida, sorrir com o errado e rir na porta do Sagrado.


A sutil arte é ligar a TV no jornal e ficar repetindo: “Meu Deus”, quando o jornalista fala uma atrocidade. A maior atrocidade é ficar somente assistindo e muitas vezes dizendo: “mereceu”, “se estivesse em casa isso não aconteceria”. É o ato de abandonar a boa modéstia e o hábito cristão de chorar pelos que choram. Como um São Padre Pio que sofria pelas almas das pessoas, rezando e jejuando por elas. É fácil apontar o dedo, mas difícil é pedir misericórdia a Deus. Certa vez falei isso a uma pessoa e ela disse: “do que adianta fazer isso? Não sou padre e nem acredito nisso e mesmo se eu acreditasse não mudaria nada!”; bom, eu prossegui: “como se julgar fosse contornar o ocorrido, mas eu entendo. É mais fácil nascer do inferno do que nascer dos céus”.


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