- Desejo de Criador - 18/09/24
Quando se chega a certo ponto, onde já não se domina mais a própria solidão; sento-me à mesa, cruzo as pernas, apoio a cabeça no punho; olho para meu rebelde pensamento que, como uma nuvem escura, vaga pela casa, tornando obscuro tudo o que penso. Ele se torna amedrontador, ao ponto de me fazer sentir impotente. Mas quando me dou conta de que sou eu seu criador, ergo a testa e o obrigo a condensar-se em minha caneta velha na folha de papel.
Em certos momentos, o pensamento se esvai e turva a linha que desenho; então, como um pai que educa seu filho, educo meu pensamento que se faz tolo em não obedecer. Minha própria criação contaminou-se com a rebeldia humana; não é novidade quando o produto leva traços do fabricante. E após terminar o texto, olho para a quimera que fui como compositor e, como um bom professor, vou apagando todas as falhas que extraviei.
Mas quando ponho-me a refletir, vejo meu próprio ego escorrer pelo texto que esculpi. Fui eliminando partes das imperfeições, tornando o texto mais belo aos meus olhos. Se observo o maior dos escritores, vejo a sutileza de colocar em sua história os defeitos e amores. É nesse momento que se diverge o simples do Criador; eu crio por amar e Ele cria porque já amou. Por estar em si a perfeição, Seu pensar se faz uniforme com o próprio coração. Não existe luta para domar a ideia que foi fomentada, porque quando se cogita, ela já vem podada.
No epicentro da história, as palavras criam uma realidade; a minha cria uma e a Dele brota na verdade. A minha por si é frívola no desejo de existir, a Dele é bela quando, antes de tudo, criou o que desejo escrever aqui. Se faz bela toda essa história porque, diferente das outras em que o personagem principal fica vivo ou morto, nesta é o Autor que se entrega sem borracha para terminar o desfecho de sua história mais amada.
